EXPANDA SEUS CONHECIMENTOS

TRABALHE SEMPRE EM CONJUNTO

NÃO DESISTA DIANTE DAS DIFICULDADES

Libertação

 

João, o Evangelista formou com seu irmão Tiago, uma dupla que se eternizou nahistória do Cristianismo, pela disposição que ambos tiveram na disseminação da Boa Nova do reino de Deus. Nunca se esqueceram, por onde andavam, de deixar as marcas do Cristo nos corações sofredores, nos estropiados, nos encarcerados, como também de plantar as sementes da esperança nos corações infantis. João Evangelista amava a natureza de maneira extraordinária. Nas suas horas de contemplação, jamais se esquecera de perambular pelas margens  do  Rio  Jordão,  sentindo  naquelas águas  que  se  estendiam  de  forte  a  sul  da Palestina, uma estranha presença que o fazia recordar-se de coisas que não conhecera.

 

O Jordão! O maior rio da Palestina e um dos maiores do mundo, senão a maior em certos aspectos é, por assim dizer, o único que não obedece ao nível do mar. E mais baixo que o Mediterrâneo. Foi palco da presença de João Batista, abrindo as veredas para o grande Messias. Foi nessas águas abençoadas que Jesus se tornou pequeno para que a voz do deserto conhecesse sua soberania. 0 Batista foi um dos maiores, nascido de mulher, que a Terra recebeu e o Cristo o maior nascido do

Céu para a Terra.

 

O Rio Jordão percorre mais de duzentos quilômetros, fertilizando as terras das suas margens e abençoando a vida, com a sua própria vida. Ele é qual a Rio Nilo no Egito, o Ganges na Índia, o Eufrates na Ásia Ocidental, o Mississipi nos Estados Unidos e o São Francisco no Brasil. Eis que João, ao passear nas suas margens, sente que as águas pedem libertação. Nascem no selo da terra, onde se encontravam presas circulando nas velas do planeta, como sangue branco e se libertam na face da Terra, buscando o seu Deus: o mar.. . O Rio Jordão, pensava o Evangelista, é um risco de luz na Palestina. Suas águas até curam os enfermos. Jesus não disse, certa feita que o homem vale mais que as plantas, que os peixes, que os pássaros Com certeza mais que as águas. Por que ele, João, ainda mais como discípulo do Grande Mestre não poderia libertar-se das pressões do mundo e dominar o cativeiro da carne para viver em espírito e verdade? Claro que poderia sentir Deus e a vida sem os engasgos da ignorância.

 

O  discípulo  moço  deu  entrada  à  inspiração  divina,  procurando  saber  as  vias principais do amor universal, Não era muito dado a pesca, por enxergar nos peixes seres vivos com o mesmo direito de viver, se o homem não lhes tirasse a vida. Amava as plantas e tinha muito carinho com os animais. Nessa busca da natureza, começa a entender as línguas de todos os reinos, onde sentia o pulsar da criação.

 

João conhecia muito bem Jericó, aldeia que ficava ao sul da Galiléia, quase na embocadura do Jordão, no Mar Morto. Tinha amigos nessa aldeia que o admiravam pela vida mística que levava. E foi nessa região que ele se aproximou mais do povo, passando a ensinar o Evangelho, na forma nascente. Da maneira que o ouvia do Mestre, fazia com que outros pudessem ouvi-lo. Como intermediário da Boa Nova acendeu a chama de fé e esperança naqueles corações simples.

 

Em uma manhã ensolarada, quando parecia que os ventos alegravam mais o povo de Jericó, João surge em um pequeno mercado. Muitos solicitavam sua presença meiga, para falar do Profeta que ele anunciara. Por instantes, ouvem-se gritarias no grande pátio. Era um louco conhecido na região, cabelos em desalinho, roupas rotas e boca espumante, com muitas escoriações. “Esse é o doido Janjão”, diziam uns. Outros, temendo a presença do homem, avisavam: “Cuidado com ele, isso aí é urna fera, tem dia que ele está furioso”. A correria começou. João, paciente, olha. Estava frente a frente com Janjão, que mais parecia um monstro. Observou a inquietação daquela alma pelo desespero dos olhos. Lembrou-se de Deus e não esqueceu Jesus. 0 povo, assustado, admirava a coragem daquele moço, cujos cabelos loiros caíam aos ombros como se fossem raios de sol em cachos de ouro. 0 homem doente começou a apagar a sua fúria quando o Evangelista ensinou-lhe o nome de Cristo.

Janjão sentou-se no chão, pediu para que João fizesse o mesmo e falasse mais daquilo que estava dizendo. João discorre com veemência sobre o Messias, os curiosos se ajuntando, uns diziam que João era filho do Deus do amor, outros que ele era um profeta que nada temia. Depois de conversar muito tempo com Janjão, este acompanhou o discípulo até a estalagem, onde comeu e bebeu com desembaraço. Entendendo muito bem o que o apostolo falava, quis várias vezes beijar as mãos do

Evangelista. Este não permitiu, dizendo, como Pedro na Porta Formosa, quando um aleijado se curara somente atingindo a sombra do apóstolo: “Eu também sou homem, deixa para quando tu encontrares o Mestre, que Ele merece a tua reverência”.

 

O doido de Jericó às vezes chorava, às vezes sorria, dizendo a João: “Meu senhor, há momentos em que vejo um homem vestido de luz junto ao senhor, ajudando o amigo a conversar comigo, será que isso e efeito da loucura? João estende a mão sobre sua cabeça, dizendo carinhosamente: Não, meu filho, se por acaso for uma loucura, é uma loucura divina, que todos procuramos ter. Esse que você está vendo e o nosso Mestre”.

 

Voltemos a Betsaida! João aproxima-se do casarão e entra nele com Jesus. Todos Os discípulos aí já se encontravam. André sente-se no dever de orar e o faz com respeito. Tiago, ao lado de João, acentua com entusiasmo:coisa?

— Há muito que você não fala, por que não pergunta a Jesus hoje sobre qualquerJoão olha para o Cristo e este responde com um brando sorriso, autorizando o apóstolo a perguntar. João especula, com humildade:

 

— Mestre, ficaria muito contente se nos dissesses acerca da Libertação de uma alma, de um povo, ou da humanidade.

 

Jesus, com a meiguice característica, responde:

 

— A Libertação da humanidade e de um povo, na profundidade do termo, depende muito, mas muito, da Libertação individual. Por enquanto, vivemos nos ensaios, e nestes ficaremos milênios, para aprendermos a verdadeira Libertação. Livres são aqueles que começam a amar a verdade. Às vezes, João, trabalhamos para libertar um povo que nos pertence pelo sangue, por fazer parte da comunidade que nos pertence por nascimento. Essa liberdade custa, como a história atesta, vidas e mais vidas. 0 saldo, depois da luta de mortes e estragos, não nos deixa a consciência tranqüila, enquanto não repararmos a covardia, a vingança e o ódio a que demos vazão. Quando somos vitoriosos, ficamos mais escravos pelo constrangimento de fazer muito mal a criaturas que, muitas vezes, nunca desejaram brigar. Libertar uma nação é muito mais difícil, porque quanto mais se mata pela liberdade, mais o

cativeiro se estampa na consciência. A Libertação que queres, comparando com a natureza, podes tê-la. Na verdade te digo, que ser-te-á dado muito mais, pela vigilância do tempo. Ouve bem, para que não te esqueças nunca: conhecerás a verdade e ela te tornará livre. Todavia, não procures essa verdade somente em um ponto da vida. Ela se estende em toda a sabedoria de Deus. A verdade e como o ar que não cansa de soprar em todas as direções.

 

Faz uma pausa para melhor orientação do discípulo, e continua, com critério:

 

— Os homens da lei na Terra propõem a Libertação de um povo ou de uma nação por caminhos errados, pelas vias largas e métodos selvagens. A verdadeira Libertação haverá de surgir de dentro de cada criatura. Este pode e deve ser um esforço coletivo. Não é um trabalho de dias, nem de anos, nem de séculos, pois é um tempo longo. Essa Libertação é feita de pequenas coisas, como a tolerância com discernimento; o trabalho com disciplina; o perdão sem exigências; o sorriso temperado na

dignidade; o amor sem paixão; a persistência sem fanatismo e o dever com respeito.

 

 

Jesus olha firmemente para o discípulo e comenta com consciência do fato:

 

— Meu filho, o que fizeste em Jericó e que tornaste por Libertação de um homem, na verdade é somente aparência de liberdade. Não deixa de ter seu real valor na pauta do bem, no entanto, só ele mesmo poderá e terá esse direito da sua própria Libertação. O quefizeste por amor serviu de toque espiritual, mas o resto, o mais duro de fazer, pertence a ele, somente a ele, para que possa desfrutar dos seus próprios esforços no alvorecer da sua maturidade. Se queres desatar dentro de ti a forca da Libertação, tal trabalho está em tuas mãos. Ama e começaras bem; ama e começaras a sentir a felicidade; ama que o amor te beneficia por dentro, igualmente te ajudando por fora. Se procuras uma liberdade fácil, tu mesmo és o primeiro a desconfiar dela, sentindo a sua falsidade. A razão não inaugura no homem a Libertação. Somente quem tem o poder de fazer isso é o amor. E para que a criatura ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, tem de passar por todas as fervuras do espaço e do tempo. A coroa dessa conquista é a Libertação. Pensaste bem agora. Não foste somente tu que ajudaste o irmão enfermo a se livrar de perseguições espirituais. Primeiramente, foram as bênçãos de Deus, que te ouviu, foi o amor d’Ele que te ajudou a ajudar.

 

João  chorava  baixinho,  dada  a  sua  emotividade,  ainda  mais  que  o  Mestre  não conhecera o fato que se passara.

 

Encerrou-se a reunião daquela noite, mas não se encerraram a alegria e a esperança, que continuavam

eternamente a vibrar nos corações dos discípulos do Mestre dos Mestres.

 

Ave Luz Psicografia João Nunes Maia Pelo Espírito Shaolin