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Cura

 

É bem compreensível que, mesmo sendo publicano, Mateus não poderia deixar de alimentar em seu coração a grandeza da honestidade, que o tempo iria provar. Se tinha manias de grandeza, isto se explica, em parte, por ser produto do meio em que viveu, como herança de seus ancestrais. O homem, por vezes, é governado pelas contingências do ambiente de que faz parte. Mesmo sem querer, respira os mesmos sentimentos da maioria, sem prejuízo de uma certa sintonia natural.

Levi era um fruto a que o sol da vida já emprestara cores que denunciariam sua maturidade, e o agricultor está sempre atento para colher frutos que anunciam a libertação da árvore.

 

O cobrador de impostos ouviu a voz do Mestre, que dissera: “Vinde a mim!”, como agricultor da vida. Levi, fruto que a colheita aproximara, com um leve toque cai nas mãos do Mestre. E a gratidão o fez oferecer um banquete de sabor inesquecível, aquele que dá exemplo do desprendimento às coisas da Terra, aquele que corta de uma só vez a usura, a ganância, procurando buscar as grandezas da vida, em espírito e em verdade.

 

Mateus assistira a muitas curas de Jesus por simples palavra, ou delicado toque das mãos e aquilo o levava à meditação prolongada, desta forma: “Que poder é esse que não é dado a todos os homens?” Já havia lido em vários livros as façanhas dos santos, a notícia sobre os místicos e conhecia, por informações seguras, a vida de Buda. Mas assistir,  frente  a  frente,  esse  tipo  de  coisas,  nunca  tivera  esse  privilégio,  como acontecera  diante  de  Cristo  e  isso  remoia  no  seu  íntimo.  Como  isso  poderia  se processar? E rematava: “A vida tem dessas coisas; às vezes os próprios sábios não compreendem a sabedoria maior, que é Deus”.

 

Sabia Mateus que a medicina, em Roma e na Grécia, estava muito adiantada, mas havia ainda muitas enfermidades que não eram curadas e os próprios terapeutas morriam com simples dores de cabeça. E então, como um homem, tido como profeta, era temido por todas as doenças, inclusive as incuráveis? Bastava uma ordem sua para que elas saíssem dos corpos torturados pelas suas presenças. Esse homem tinha algo de divino, que merecia todo o respeito e reverência dos demais.

 

O  “vinde  a  mim”  bastou-lhe  para  abandonar  tudo  e  acompanhar  o  Mestre. Queria ser um médico, como o Senhor, um médico de almas.

 

Levi, percorrendo as encostas de Betsaida, para em um casebre, cujo aspecto deixava ver a situação dos moradores. Chega à porta e nota que no interior alguém chorava. Percebe correrias, que deixavam bem nítida a presença de doente grave, tal era o movimento da casa. Pelo impulso da bondade, vai entrando, vê alguém, pede licença, causando admiração a todos. “O cobrador de impostos!”, resmunga o velho na cabeceira da cama de uma criança semimorta, e os outros param, olhando cismados.

 

Mateus, desconcertado, pede licença mais uma vez e o velho curva a cabeça, acedendo. Levi pergunta:

 

— Porventura posso fazer alguma coisa por vós? O que querem de mim? Não fui chamado, mas estou aqui para servi-los.

 

A desconfiança pairou no ar. Como acreditar em um homem que, sendo judeu, não tinha pena dos seus irmãos e servia de ponte do dinheiro dos judeus para Roma? Mesmo assim ele insiste em saber o que tinha o menino e pensa em recursos para curá- lo. Lembra-se de Jesus: “Se Ele estivesse aqui!” Mas, como não era possível, lembra-se do que Ele havia dito no ato de uma Cura: “Podeis fazer ainda maiores coisas do que eu faço”. E avança para o catre, põe as mãos sobre o enfermo e ordena que ele

ande, em nome de Deus. Repete umas três vezes e espera, confiando no Senhor. Nesse instante nota, com um leve abrir de olhos, que o menino estremece. Aumenta-se-lhe a fé! Eleva a Deus uma oração fervorosa. Quando termina, vê que a criança se tranqüiliza, dá um suspiro e silencia. Os familiares provocam tumulto, as mulheres destampam em choradeiras que pareciam pertencer aos muros de lamentações. A tristeza paira no ar. Mateus, assustado e pálido, quis sair. Deu-lhe vontade de correr, decepcionado com seus poderes. Sentiu-se fraco, abatido, pensando: “Eu é que deveria ter morrido em troca desse vexame”. Quando se aproxima da porta, pernas trêmulas, uma mão segura seu braço! O medo aumenta! “O que será? Testemunho não é; se eu for agredido, pode ser um reparo ao que fiz, já que nada fiz de bom.” A consciência o tranqüiliza. E ele pensa: “Devo ceder com humildade” . O ancião, com alguns riscos de lágrimas nas faces, fala a Mateus, voz entrecortada:

 

— Meu Senhor! Agradeço-te imensamente pelo que fizeste. Considero a tua presença nesta casa o resultado das nossas orações que acabamos de fazer a Deus Todo Poderoso. O senhor curou meu filho desse fardo pesado que ele vinha carregando há mais de doze anos. Ele nasceu surdo e mudo, e depois descobrimos que quase não enxergava, as pernas eram mirradas e nasceu sem os dedos das mãos. Os intestinos desta criança, quando ela faz muita força para chorar, saem para fora em grande parte, sendo preciso grande habilidade para devolvê-los ao seu lugar habitual. Não nasceram dentes nesta criatura de Deus, e sua cabeça, o Senhor pode constatar, na base do crânio é uma chaga em que nenhum bálsamo faz efeito.

 

Diante da narração do velho, Mateus não suportou e deixou seu corpo descer, assentando-se no chão e pedindo água. O velho atendeu o discípulo e beijou suas mãos, com reverência, dizendo:

 

— A morte do meu filho, senhor, foi um milagre que não esperávamos. Ele sempre foi resistente a todos os sofrimentos, graças a Deus. Graças a Deus, nós descansamos.

 

Mateus ficou algum tempo com aquela família, despedindo-se atordoado, após o que, desceu para o centro de Betsaida, pois a hora já o chamava para a reunião na igreja dos pescadores. O ex-cobrador de impostos se mostrava diferente.

 

Jesus sorri para João, que formula uma oração, abrindo os trabalhos da noite. Mateus, sem se fazer esperar pelos demais, levanta-se meio triste e pergunta ao Mestre:

 

— Senhor Jesus, por Deus, queiras me responder, explicando o valor da Cura, e o que é curar enfermos? Agradeço-te se, por acaso, for ouvido o meu pedido.

 

O Nazareno, tranqüilo e confiante, manifesta-se:

 

— Mateus! O que queres que eu faça para que tenhas confiança em Deus? A Cura não é somente o restabelecimento do desequilíbrio orgânico das pessoas. Não é somente devolver aos paralíticos os movimentos das pernas e braços. Não é somente, Mateus, fazer ver aos cegos. È também libertar almas que estão presas no cárcere da carne, talvez por medo de tornar a voltar para a região de onde vieram. Quando se inicia um incêndio em uma casa e és chamado a cooperar, o muito que a tua inteligência atinge é procurar salvar as criaturas que moram na referida residência. O mais, tudo vira cinza. Vais ficar triste e desnorteado porque se queimou a casa e a mobília? Deverias ficar sem condições para a alegria é se tivessem morrido as pessoas e somente salvado a casa e os utensílios. O corpo, Mateus, é uma roupa da alma, que em muitos casos já aparece rota e com vários

remendos. Em determinadas circunstâncias, quanto mais a ciência mexe, piora a situação. Fizeste bem de te aproximares daquela casa; foram as tuas mãos que desataram as amarras da alma ali presa. Não deixa de ser um princípio de Cura, porque ela já partiu com acentuado alívio. Tu sofreste porque querias que Deus te atendesse da maneira que julgavas melhor, ou seja, devolvendo o doente em perfeitas condições aos seus. Esqueceste de pedir que Deus fizesse a vontade d’Ele e não a tua,

pois nem sempre sabes o que queres.

 

O Mestre interrompe seu discurso. Ninguém ouve nada no salão. Os mais curiosos ficam aflitos para conversar com Levi acerca do ocorrido. O que teria se passado com o companheiro? Acalmaram-se, pois mais tarde saberiam. Mateus começa a se sentir melhor e espera o que o Mestre tem a mais para dar.

 

Jesus, sereno, prossegue:

 

— Na verdadeira acepção da palavra, ninguém Cura ninguém. Nós podemos servir de alerta para que os enfermos se curem a si mesmos. No entanto, essa realidade só poderá ficar em evidência para um futuro muito distante. Por enquanto, é bom que a ilusão se manifeste, para que os enfermos, pela força da própria dor, conheçam a si mesmos e façam uso do que têm em seus corações, depositado por Deus, que é o Pai de todos, gerador do amor universal. Quem espera a Cura fora de hora, ainda

desconhece os remédios existentes por dentro que, por vezes, deixam parecer habilidades exteriores, que podem ser chamadas de alívio. A verdadeira Cura, o restabelecimento completo da alma e do corpo, vem da fonte inesgotável do espírito, que não foi feito enfermo, mas com perfeita saúde. Se queres ser, e a bem dizer vais ser, um terapeuta volante em nome da caridade, ao curares os corpos, não te esqueças das almas, de propiciar a elas meios de auto conhecimento, por ser esse meio um caminho ou uma semente de luz que cresce na temperatura do amor, concedido pelo coração. Mas antes, meu filho, de pretender curar os outros, deves principiar a Cura de ti mesmo, com esforço próprio, na feição de disciplina e educação de costumes antigos, que o progresso não aceita mais.

 

Cristo abençoa a todos e levanta-se em direção às portas, que já estavam sendo abertas.

 

Mateus, meio lá meio cá, ainda pensava na velha idéia de curar, mas curar os

corpos. A alegria parecia ser maior, mesmo que fosse meio transitória. Entregava a

Deus e a Jesus o que ele fizesse. E levanta, partindo para maiores feitos.

 

Ave Luz Psicografia João Nunes Maia Pelo Espírito Shaolin